Procurem explorar mais a onda de fusões e aquisições, do fim de patentes, bem como o impacto dos genéricos na configuração das empresas e de seus modelos de negócio.
Luciel H Oliveira
Por genéricos, Brasil e Índia abrem disputa na OMC contra europeus
Reinaldo Guimarães:
"Com a expiração de muitas patentes em 2010 e 2011, a produção aumentará muito no Brasil"
De Genebra - VALOR ECONÔMICO, 13/05/2010
Brasil e Índia deflagraram ontem uma ofensiva na defesa de remédios genéricos, abrindo disputa contra a União Europeia (UE) na Organização Mundial do Comércio (OMC). O Brasil prepara uma ação também na Assembleia Mundial da Saúde na semana que vem. Brasília e Nova Déli acusam Bruxelas de manter uma legislação que já permitiu à Holanda e outros países europeus confiscarem genéricos em trânsito para países em desenvolvimento, violando o direito, pelas regras da OMC, que toda nação tem de importar esses remédios, que são mais baratos e estão livres de patentes.
A primeira carga de remédios foi apreendida em 2009, procedente da Índia, que seguia à América Latina, depois de queixas feitas por farmacêuticas europeias que detêm as patentes na Europa, mas não nos países produtores. O Brasil diz que um genérico, Losartan, para hipertensão, que trataria 300 mil pessoas durante um mês, não chegou ao país. A Índia reclamou de mais duas apreensões.
O embaixador brasileiro na OMC, Roberto Azevedo, disse que as autoridades de saúde no Brasil constataram que os importadores estão trazendo genéricos por outros caminhos, em vez da Europa, o que encarece o produto. Essa incerteza e custo maior no trânsito de genéricos parece ser a estratégia de multinacionais, julga Azevedo. Ainda mais num cenário em que vários remédios produzidos por grandes laboratórios, gerando US$ 30 bilhões em vendas anuais, vão perder suas patentes nos próximos anos, e a produção de genéricos deve aumentar.
Outras fontes dizem que a ação europeia pode criar um precedente para apreensões de outras mercadorias no futuro, também sob o pretexto de não terem patente ou serem suspeitos de falsificação.
A UE prometeu que seus países não usariam mais a legislação que permite o confisco. Mas essa promessa foi considerada insuficiente. O prazo para as consultas na OMC é de 60 dias. Se persistir o confronto, será pedido o estabelecimento de um "painel" (comitê de especialistas) para examinar a conformidade da legislação europeia com as regras internacionais.
Também por causa das apreensões, o Brasil apresentará proposta na Assembleia Mundial da Saúde, semana que vem, para a Organização Mundial da Saúde (OMS) manter o foco contra falsificação de remédios no âmbito da saúde pública e não procurar estendê-lo para questões comerciais.
O secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Reinaldo Guimarães, acusa "uma tentativa pelos detentores de patentes de fazer confusão entre falsificação e contrafação". Ele estima que uma ação firme na OMS precisa ser tomada, ainda mais que a produção de genéricos no Brasil tende a aumentar consideravelmente. De cada 100 unidades vendidas no país, 20 são de genéricos. Em valor, eles representam entre 15% e 18% do mercado, o que significa fatia de negócios superior a R$ 4 bilhões.
"O potencial para crescimento no Brasil é enorme, quando se considera que nos EUA os genéricos tem 50% do mercado e nos países nórdicos 70%", afirmou. "Com a expiração de muitas patentes em 2010 e 2011, a produção aumentará muito no Brasil." Ele confia que o Supremo Tribunal Federal rejeitará demandas dos laboratórios para estender as patentes, como ocorreu no caso recente do Viagra.
A ação na OMS será comandada pela embaixadora brasileira na ONU em Genebra, Maria Nazareth Farani Azevedo, que articula apoio de outros países. América do Sul, Índia e vários países em desenvolvimento defendem a proposta.
A indústria farmacêutica acompanha com prudência o confronto com a UE na OMC. Antonio Brito, presidente da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisas (Interfarma), nota que na Índia uma parte da indústria é moderna, mas outra não tem sequer 1% de controle pelo governo. As suspeitas em São Paulo são de que muitos remédios falsificados procedem da Índia via Paraguai. "Nosso problema não é com a Índia, mas de como se evitar falsificação de remédios", disse Brito. Já Guimarães nega a existência de grandes apreensões de medicamentos falsificados no país. "Se tivesse isso, a imprensa teria noticiado." (AM)
Laboratórios: Farmacêuticas deverão ser alvo de nova onda de fusões e aquisições
VALOR ECONÔMICO
Mônica Scaramuzzo, de São Paulo -07/04/2010
O movimento de fusões e aquisições no setor farmacêutico deverá continuar firme dentro e fora do país em 2010. No ano passado, foram realizadas 12 operações, contra sete em 2008, envolvendo laboratórios nacionais e estrangeiros. Neste primeiro trimestre, cinco negócios foram registrados, ante três no mesmo período do ano passado, de acordo com a consultoria KPMG, o que dá indicações de que o ano continuará bem aquecido para as indústrias desse setor.
Um trabalho realizado pela BSP (Business School São Paulo) mostra que esse movimento de consolidação no setor deverá se manter aquecido nos próximos meses. A BSP apresenta hoje o primeiro Painel da Indústria Farmacêutica (PIF) ao mercado, com o objetivo de se tornar uma ferramenta de interlocução sobre temas estratégicos desse setor. O estudo ouviu 27 empresas que representam 40% do mercado farmacêutico brasileiro.
"Esse movimento continuará crescendo à medida que o cenário econômico no país segue positivo e a população tem maior acesso a medicamentos", disse o professor da BSP, José Fernando Ramadinha, também diretor da Ramadinha Soluções Estratégicas ao Segmento Farmacêutico. O professor é um dos idealizadores desse trabalho.
As dificuldades no lançamento de novos medicamentos enfrentadas por laboratórios de todo o mundo estão entre os principais motivadores dessa onda de consolidação. Enquanto as fusões e aquisições devem acelerar seu ritmo neste ano, novos aportes de grupos estrangeiros também devem se intensificar no país, aponta 91% dos executivos que responderam ao relatório do PIF.
As indústrias consolidadoras estão mais interessadas em adquirir empresas com "pipeline" promissores e também querem aumentar seu portfólio. O ingresso a mercados estratégicos também impulsiona esse movimento. Para 60% dos executivos ouvidos pela BSB, a estratégia das companhias será adquirir empresas com portfólio promissor, enquanto que 40% esperam compartilhar esforços de pesquisa com instituições públicas.
Neste primeiro trimestre, a Hypermarcas foi a primeira empresa nacional a dar o tom nas operações de F&A, com a compra do laboratório de pequeno porte Luper. No fim do ano passado, a companhia adquiriu a Neo Química, de Goiás, que estava sendo disputada também pela americana Pfizer. A compra da Medley pela francesa Sanofi-Aventis em 2009 começou a inflacionar os ativos do setor farmacêutico.
"Os movimentos de F&A vão ficar mais aquecidos em todos os segmentos da economia. As empresas que adiaram seus projetos de expansão por conta da crise vão efetivar essas operações este ano", afirmou Luís Motta, sócio de Corporate Finance da KPMG no Brasil.
Segundo os executivos ouvidos para o relatório do PIF, os laboratórios também devem reforçar parcerias para desenvolvimento de produtos específicos, compartilhamento de ações de marketing e promoção, e a busca de recursos para pesquisa e desenvolvimento.
De acordo com o PIF, os laboratórios também estão dispostos a investir no país. A aquisição de novas companhias, rastreabilidade de produtos e comunicação em mídias digitais encabeçam a lista de aportes do segmento. A grande maioria dos executivos ouvidos, 81,82%, respondeu que vai elevar seus investimentos no Brasil este ano. Já 9,09% se limitarão a reinvestir seus lucros obtidos na operação brasileira e para outros 9,09% a tendência será remeter lucros para as matrizes, sem realizar novos investimentos no país.
Ainda de acordo com o relatório do PIF, as importações do setor deverão crescer este ano. Em 2009, as importações de medicamentos cresceram menos que as exportações. Embora ainda o Brasil seja deficitário na balança comercial do setor, houve redução significativa. Para 2010, o quadro deverá ser diferente, com aumento mais intenso das importações se comparadas com as exportações. Já as vendas agregadas devem continuar bem acima do PIB. Enquanto o país em geral cresceu 0,9% no ano passado, as vendas de medicamentos cresceram 8,2% e devem crescer 9,35% neste ano.
Perda de patente deverá movimentar R$ 800 milhões Valor Econômico, de São Paulo, 28/01/2010
O mercado de medicamentos genéricos no Brasil poderá receber um incremento de cerca de R$ 800 milhões entre 2010 e 2011 por conta dos remédios de marcas que vão perder a patente neste período. As vendas totais de medicamentos no país ficaram em R$ 30,2 bilhões em 2009. Desse total, 15%, ou R$ 4,5 bilhões, foram de produtos genéricos, afirmou Odnir Finotti, presidente da Pró-Genéricos (Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos).
"De cada 100 unidades vendidas no país, 20 são de genéricos", disse Finotti. "Esse é um mercado que tem crescido 20% ao ano." Neste ano, o medicamento da americana Pfizer, o Lipitor (usado no combate ao colesterol), um dos mais vendidos do mundo, perderá sua patente em dezembro. "A empresa conseguiu estender a patente duas vezes [originalmente vencia em 2006, foi estendida para junho de 2009, mas foi postergada para dezembro deste ano]", afirmou Finotti. As vendas desse remédio movimentam cerca de R$ 250 milhões no país.
Outro "blockbuster" (campeão de vendas) é o Diovan, que combate a hipertensão, um dos carros-chefe da suíça Novartis. A patente desse produto expira em junho, segundo Finotti. Para 2011, o produto mais aguardado pelos laboratórios genéricos é o Viagra. A "pílula azul", também da Pfizer, é indicada para combater a impotência sexual. Segundo o presidente da Pró-Genéricos, cerca de 25 medicamentos devem perder a patente até o fim de 2011, incluindo produtos adquiridos pelo governo.
A Lei dos Genéricos foi criada em 1999, mas os primeiros medicamentos foram lançados em 2000 no país. "Os produtos começaram a ganhar maior importância a partir de 2004", afirmou Finotti. Na avaliação de Nelson Mussolini, vice-presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos do Estado de São Paulo (Sindusfarma), quando um produto perde a patente seu preço passa a representar 65% do original de marca.
Analistas ouvidos pelo Valor afirmam que muitos laboratórios internacionais estão interessados em investir em aquisições de companhias nacionais com foco em genérico para poder ganhar nas duas pontas. A aquisição mais recente de multinacional neste segmento foi a operação envolvendo a compra do laboratório nacional Medley, o maior em genérico do país, pela francesa Sanofi-Aventis. (MS
Indústria farmacêutica
A Indústria farmacêutica é responsável por produzir medicamentos. É uma atividade licenciada para pesquisar, desenvolver, comercializar e distribuir drogas farmacêuticas. Muitas das companhias da indústria farmacêuticas surgiram nos finais do século 19 e início do século 20. As principais descobertas aconteceram em torno das décadas de 1920 a 1930. Nos últimos anos surgiram no Brasil os medicamentos genéricos que são alternativas às medicações tradicionais.
Controvérsias
De um modo geral, uma indústria farmacêutica fabrica e comercializa seus medicamentos somente após um longo processo de pesquisas, descobertas e testes dos remédios desejados, após meses ou anos de investimentos. Quando um medicamento é fabricado através de uma fórmula descoberta por uma determinada empresa, busca-se a obtenção de patentes, para que outras indústrias tenham que pagar royalties, caso desejem também fabricá-lo. A maior parte do investimento é recompensada pelo lucro advindo da venda de royalties e da comercialização direta dos medicamentos.
Porém, as indústrias farmacêuticas, principalmente nas últimas décadas, sofrem por possuírem uma imagem negativa, fruto da relação entre saúde e mercado. As pesquisas na área, para busca e aperfeiçoamento de determinados medicamentos, podem chegar à casa dos bilhões de dólares. Porém os críticos afirmam que tais pesquisas destinam-se apenas a obtenção de soluções que permitam um retorno financeiro considerável, como doenças que atingem pessoas com maior poder aquisitivo, principalmente nos países desenvolvidos; deixando-se de lado problemas que afetam países em desenvolvimento, que não poderiam comprar os remédios pelos preços que a indústria gostaria de praticar. Segundo Louis Currat, secretário-geral do Fórum Global de Pesquisas em Saúde, ligado à Organização Mundial de Saúde, "menos de 10% das verbas para pesquisa são destinados a 90% dos problemas de saúde do mundo".
Há quem afirme, entretanto, que sendo imprescindível a realização de pesados investimentos na área para encontrar medicamentos eficazes contra certas doenças, os recursos necessários deveriam vir de iniciativas públicas, ou seja, as pesquisas deveriam ser subsidiadas pelos governos locais, uns dos grandes prejudicados pelos males indesejados. Assim, a indústria poderia praticar preços menores, sem prejudicar a proteção das patentes e a venda de royalties.
Tudo isso se evidencia em números que mostram a diferença de pesquisas sobre doenças de impacto mundial, por exemplo: a malária, doença que mata um milhão de pessoas por ano, com 90% dos infectados localizados na África, conta com 18 medicamentos e 2 vacinas em desenvolvimento; a tuberculose, que mata dois milhões de pessoas todos os anos, (90% destes em países em desenvolvimento), conta com 17 medicamentos e 2 vacinas em desenvolvimento; e a AIDS, síndrome responsável por uma média de dois a três milhões de mortes anuais (com dois terços dos aproximadamente 40 milhões de infectados atuais encontrados na África, porém muitos outros milhões em países desenvolvidos), possui 88 medicamentos aprovados, 77 candidatos a medicamentos e 19 vacinas em desenvolvimento.
Principais Players
De acordo com a Revista Exame, as melhores empresas do setor em 2008 estão listadas abaixo:
Ainda segundo a mesma revista, o setor teve o seguinte desempenho em 2008:
Indicador
Métrica
Valores
Vendas (USD milhões)
Soma
8.954,8
Crescimento das Vendas (%)
Média*
-2,3
Lucro Líquido Ajustado (USD milhões)
Soma
103,8
Lucro Líquido Legal (USD milhões)
Soma
291,5
Patrimônio Líquido Ajustado (USD milhões)
Soma
1.697,0
Patrimônio Líquido Legal (USD milhões)
Soma
2.129,7
Rentabilidade do Patrimônio Legal (%)
Média*
6,6
Capital Circulante Líquido (USD milhões)
Soma
1.089,6
Liquidez Geral (Nº Índice)
Média*
1,8
Endividamento Geral (%)
Média*
45,8
Endividamento a Longo Prazo (%)
Média*
13,9
Riqueza Criada (USD milhões)
Soma
1.545,6
Nº de Empregados
Soma
24.712
Riqueza Criada por Empregado (USD mil)
Soma
1.255
Ebitda (USD milhões)
Soma
546
Salários e Encargos (USD milhões)
Soma
860
Impostos sobre Vendas (USD milhões)
Soma
998,1
Exportação – Valor (USD milhões)
Soma
240,9
Exportação – % das Vendas (%)
Média*
3,7
Margem das Vendas (USD milhões)
Soma
23,9
Giro (USD milhões)
Soma
25,6
Liquidez Corrente (Nº Índice)
Média*
2,3
Total do Ativo (USD mil)
Soma
4.161.506
Medicamentos genéricos no Brasil: uma pílula difícil de engolir para a grande indústria
A introdução dos medicamentos genéricos no Brasil há cinco anos transformou a indústria farmacêutica do país. Desde então, este tipo de fármaco foi ganhando mercado ano após ano e, atualmente, é responsável por 11,6% do total de unidades de medicamentos produzidas no país. Este fenômeno estimulou o crescimento da indústria nacional, diminuindo a participação dos grandes laboratórios internacionais e seus produtos de marca no mercado doméstico. No entanto, esta não é a única ameaça que afeta os grandes laboratórios com presença no Brasil. O governo, numa tentativa de negociar descontos de preços, ameaça violar as patentes dos medicamentos que compõem o coquetel para o tratamento da AIDS. Até o momento, esta ameaça não se materializou, mas, de acordo com as empresas internacionais, provocará a redução de investimentos da indústria farmacêutica no país.
A história dos genéricos no Brasil teve o pontapé inicial a partir da definição da Lei de Patentes, que regulamentou o instituto das patentes no país, dando caráter internacional a essa noção de que há direitos de exploração sobre um determinado produto, serviço ou idéia inovadora. Diante da proteção aos direitos dos detentores de patentes, o governo brasileiro decidiu regulamentar o setor de medicamentos, um dos mais criticados até então por não respeitar os direitos internacionais. Assim, o Brasil era o paraíso dos remédios copiados sem pagamento àqueles que possuíam o registro de criação de determinadas substâncias ou medicamentos.
Em 1999, o governo aprovou a Lei dos Genéricos, permitindo às empresas fabricar legalmente medicamentos que são cópias perfeitas das drogas cujo prazo de patente expirou. O resultado foi a introdução dos genéricos no Brasil, uma situação que incomodou, de início, os grandes laboratórios. A relação entre eles e os produtores de genéricos acabou se estabilizando, apesar do significativo crescimento da participação dos genéricos no mercado.
Atualmente, de todas as unidades produzidas pelo mercado nacional de medicamentos, 11,6% são genéricos, segundo números do terceiro trimestre de 2005. No item faturamento, o percentual de participação deste segmento está em 9,05%.
“O mercado de genéricos no Brasil, desde o seu lançamento, vem crescendo mês a mês. Vem crescendo em número de unidades, que é o mais importante, e em valor. Nos últimos quatro anos, no Brasil, o mercado farmacêutico esteve praticamente estagnado. Em contraposição, o mercado de genéricos cresceu muito, e continua crescendo”, afirma Vera Valente, diretora executiva da PróGenéricos (Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos).
Segundo Vera, quando se leva em consideração apenas os produtos que eram patenteados e não o são mais, os genéricos “roubaram” uma parcela considerável do mercado dos blockbusters, remédios de marca tradicionais dos laboratórios internacionais. “A gente tem uma análise em que pegamos os 50 principais produtos do mercado farmacêutico não-patenteados e comparamos a inserção dos genéricos: ela sai de uma participação inexpressiva em 2001 para hoje estar representando 41% desse mercado”, diz a dirigente.
Mesmo diante desses dados e levando-se em consideração que a indústria farmacêutica tem de fato se mantido estagnada nos últimos anos, representantes dos grandes laboratórios internacionais dizem que não há conflito na convivência com o genéricos. “Se o produto passa pela bioequivalência, pela bioestabilidade, pela biodisponibilidade, tem um método de fabricação perfeito e eu não tenho patente, nada mais justo que a entrada de genéricos. Então, nós não somos contra”, diz Jorge Raimundo, presidente do Conselho Consultivo da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, que representa grandes laboratórios internacionais).
Para Jorge Raimundo, a indústria farmacêutica de pesquisa tem uma coisa extremamente importante a favor dela, que são os grandes investimentos que faz em pesquisa, as grandes descobertas e as patentes. “Todos os laboratórios quando descobrem, inventam e lançam um produto, têm, no mundo inteiro - e o Brasil é novo nessa área de patentes, ainda -, um período de exclusividade garantido por lei, que é para eles explorarem o objeto de sua patente. Nada mais justo que quando a patente se esgote é que então entre o genérico”, diz.
“Quando os genéricos entraram, parecia que a indústria farmacêutica era contra. Não, nós não éramos contra. Nós éramos contra o que estava sendo vendido como genérico, os remédios similares que se passavam por genéricos”, explica Jorge Raimundo.
O discurso parece bater justamente com o da própria indústria dos genéricos, que também vê como grande problema do mercado os produtores de remédios similares - que não investem em pesquisa de inovação nem, tampouco, buscam a bioequivalência e a biodisponibilidade para enquadrar-se como genéricos. “Nós somos aliados, porque temos um `inimigo´ em comum: os similares... Essa competição (entre genéricos e produtos de marca) já está mais estável e se percebeu que não é ela que traz problema para cada um ter sua fatia de mercado”, avalia Vera Valente.
A função social do medicamento genérico
Longe de eventuais diferenças entre os atores de cada segmento da indústria farmacêutica, no campo acadêmico os genéricos no Brasil são vistos como fator extremamente positivo na democratização do acesso aos medicamentos.
“Qual é o principal fator favorável ao desenvolvimento da indústria de genéricos no Brasil? O custo dos medicamentos. Com a liberação das patentes dos medicamentos que já haviam ultrapassado aquele tempo limite, os preços desses medicamentos caíram 30%, 40%. Então, o medicamento genérico tem um apelo social muito grande, porque, na realidade, um dos grandes problemas no país é que a população que ganha até três salários mínimos (o equivalente a R$ 900, ou pouco mais de US$ 400) não tem condição de custear saúde, nem medicamentos. Com os medicamentos genéricos, diria que a população pobre começou a ter mais acesso aos remédios, coisa que antes não acontecia”, considera o professor Geraldo Alécio de Oliveira, coordenador do Curso de Farmácia da Universidade Anhembi Morumbi.
Para Geraldo de Oliveira, “o mercado de genéricos veio trazer saúde no sentido amplo para nossa população mais pobre. Acho que o grande ponto de política de saúde no Brasil nos últimos anos foi a abertura do mercado de genéricos”.
O programa é também elogiado por uma profissional que se dedica a um segmento intimamente ligado ao consumidor, a farmacêutica Naira Villa Lobos Vidal de Oliveira, do Ministério da Saúde e da Farmácia Universitária da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro): "Eu bato palmas (para o programa) pois acho que a grande bandeira dos genéricos é a questão da qualidade do produto. Nisso, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) investiu muito em fiscalização dos laboratórios que começaram a produzir genéricos. Esta é uma coisa que a gente precisava, tínhamos um problema sério na questão da qualidade dos produtos fabricados aqui no Brasil".
Para ela, o importante é que as pessoas passaram a ter mais condições de comprar medicamentos. “É claro que quem não tinha acesso, continua a não ter. A situação melhorou para as pessoas que já podiam comprar e passaram a comprar com preço menor. Agora, quem não tinha condições de comprar remédios, cerca de 40% da população, continuou a não ter", avalia Naira.
A paralisação do mercado
Justamente neste ponto lembrado pela farmacêutica Naira de Oliveira é que se situa um dos problemas que afetam a grande indústria: a estagnação do mercado. Ao contrário do que se esperava - que era o aumento do número de compradores com a entrada no mercado de pessoas de renda mais baixa que passariam a comprar genéricos -, houve apenas uma substituição do remédio de marca mais caro pelo genérico mais barato por aqueles que já eram consumidores.
“O que aconteceu é o seguinte: em 1997, por exemplo, antes dos genéricos, nós vendíamos no Brasil 1,35 bilhão de unidades; hoje, em 2005, a indústria vai terminar o ano vendendo 1,35 bilhão de unidades. Ou seja, nós estamos vendendo exatamente o que a gente vendia antes dos genéricos. O que houve foi uma substituição do produto de marca pelo genérico pelo mesmo tipo de comprador, que era a classe média”, destaca Jorge Raimundo.
Falando em negócios, Geraldo Oliveira considera que a Lei dos Genéricos (nº 9.787/99), na realidade, afetou as grandes indústrias farmacêuticas. Para o professor, a lei “beneficiou muitos laboratórios menores, muitas vezes nacionais, que tiveram como produzir esses medicamentos a um custo bem mais baixo”. Em sua opinião, “na realidade, nós temos um grupo de medicamentos mais baratos, que são os genéricos, com a mesma qualidade e eficácia que os medicamentos de referência, que são sempre mais caros. Isso trouxe uma queda nas vendas para os grandes laboratórios internacionais, e eles têm uma resistência muito grande em aceitar os genéricos”.
Por outro lado, ele enxerga na adoção dos genéricos um movimento que contribuiu para o avanço da produção nacional. “Na indústria farmacêutica, houve um grande movimento de contratação (de pessoal) nos nossos laboratórios nacionais. Esses laboratórios cresceram com a indústria de genéricos. Hoje, eu diria que eles adquiriram uma certa fatia do mercado”, diz. Neste ponto, Geraldo Oliveira lembra que os próprios laboratórios internacionais estão entrando no segmento de genéricos, como é o caso do Novartis. “Então, não são só os laboratórios nacionais que produzem genéricos. Como os grandes laboratórios perderam parte do mercado, eles também começaram a investir no mercado de genéricos”, explica.
Para o segmento de genéricos, a expectativa é que o crescimento observado até agora, nestes cinco anos de existência desse tipo de medicamento no Brasil, tenda a se estender no médio prazo: “A gente trabalha com uma meta na entidade - e vou te dizer que é uma previsão de realista a pessimista - de ter 20% (do mercado de medicamentos) até 2009”, aponta Vera Valente. O tempo dirá se a estimativa se concretizará.
Um enfrentamento custoso?
Enquanto na questão dos genéricos o Brasil faz questão de demonstrar que está enquadrado nas “leis e direitos” que regem a economia de mercado mundial, algumas atitudes do governo provocam mal-estar na indústria farmacêutica. Como ocorreu no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) - quando o então Ministério da Saúde ameaçou várias vezes quebrar patentes de remédios do coquetel de combate à aids para baixar os preços de compra desses produtos -, o atual governo adota estratégia parecida em sua política no trato com os fornecedores internacionais.
Recentemente, o Ministério da Saúde ameaçou quebrar a patente do medicamento antiretroviral Kaletra (um dos componentes do coquetel antiaids) durante a negociação de preço com laboratório norte-americano Abbott. Apesar de a ameaça não ter chegado às vias de fato (o laboratório concordou em reduzir em 46% o preço do remédio - distribuído gratuitamente a cerca de 163 mil pacientes portadores do vírus HIV, dos 600 mil existentes no país -, e o governo manteve a patente intacta), os efeitos da iniciativa podem não ser os mais positivos para o país.
Segundo Jorge Raimundo, “a ameaça de quebra de patente fez com que a indústria de pesquisa no Brasil, que tinha 24 mil empregados em 1999, tenha 20 mil, hoje. A gente trazia US$ 350 milhões por ano de investimentos ao Brasil até 1999, e vamos trazer US$ 90 milhões este ano. Os investimentos estão indo paro o México, para a Coréia, estão indo para outros países. A forma de lidar com isso é muito difícil para um investidor em pesquisa, porque a pesquisa usa muito dinheiro, muita gente, muito tempo, e quando você investe em alguma coisa, assume que você tem o direito de propriedade intelectual sobre aquilo... Quando você ameaça o investidor estrangeiro e diz: `Olha, vou quebrar a patente de aids´; o investidor lá fora diz: "Hoje eles quebram aids, amanhã eles quebram de cardiologia, depois de amanhã, de analgésicos´... Você ameaçando que vai quebrar um, fica-se de olho que é muito possível que você vai quebrar outro”.
Ele destaca que, desta forma, a reação da indústria é de muita precaução em relação a novos investimentos no país. “É triste a gente ver que um país como o Brasil, tão grande, faça uma ameaça tão boba, que é contraditória ao que está nos acordos internacionais... O que a gente não acha justo é o governo ameaçar que vai quebrar patente porque, alega ele, não tem dinheiro, quando nós vendemos mais barato no Brasil que em qualquer lugar do mundo. É uma medida extremamente desagradável, inoportuna, e que só cria problemas para a entrada de capital no Brasil”, alerta o dirigente.
Do outro lado da discussão, Geraldo de Oliveira defende que a questão das patentes de remédios para aids deva ser amplamente debatida, tendendo a chegar-se a uma saída voltada à visão social do problema. “Hoje, a indústria de medicamentos é uma das que mais fatura no mundo. Você quebrar a patente de uma dessas poderosas indústrias sempre vai gerar uma guerra, com certeza. Só que eu acho que o fundamento social é muito grande... Então, eu penso que a quebra das patentes dos antiretrovirais não é mais uma questão política, passa a ser uma questão de necessidade dos países que querem realmente tratar os portadores do HIV... Como profissional da área, defendo a quebra das patentes - é lógico, que com algum retorno para os laboratórios, porque eles não podem pesquisar novos medicamentos e não ter nenhum retorno”, conclui o professor.
Mercado farmacêutico mundial pode chegar a US$ 1,3 trilhão em 2020
VINICIUS ALBUQUERQUE
da Folha Online
O mercado farmacêutico mundial deve movimentar US$ 1,3 trilhão até 2020, o que dobrará o valor movimentado hoje, devido à crescente demanda por medicamente e tratamentos preventivos. Países emergentes como Brasil, China, Índia, México e Rússia devem responder por um quinto das vendas nesse setor, segundo pesquisa divulgada nesta quarta-feira pela empresa de consultoria PricewaterhouseCoopers.
De acordo com o estudo, no entanto, o atual modelo de negócios da indústria farmacêutica é economicamente insustentável e operacionalmente incapaz de desenvolver rápido o bastante os tratamentos que se tornarão cada vez mais necessários nos países emergentes.
"As empresas farmacêuticas encaram uma escassez de novos compostos, desempenho financeiro fraco, alta nas vendas e nos gastos com marketing, restrições e desafios legais e regulatórios cada vez maiores", diz a pesquisa.
Sérgio Zacchi/Folha Imagem
O mercado farmacêutico mundial deve movimentar US$ 1,3 trilhão até2020
O mercado farmacêutico mundial deve movimentar US$ 1,3 trilhão até 2020
O diretor da pesquisa e consultor da PricewaterhouseCoopers para o setor farmacêutico, Steve Arlington, disse que a indústria farmacêutica "não estará em uma posição sólida para aproveitar as oportunidades a menos que a produtividade no setor de pesquisa e desenvolvimento melhore".
"O principal desafio para a indústria é a falta de inovação. A indústria está investindo duas vezes mais em pesquisa e desenvolvimento que há uma década para produzir dois quintos dos novos medicamentos que então produzia. Esse é simplesmente um modelo insustentável de negócios", afirmou.
Nos próximos anos, a indústria farmacêutica terá de se concentrar em resultados para poder desenvolver novos produtos, para decidir sobre preços e partilhar riscos. "Empresas bem sucedidas irão provar que seus produtos realmente funcionam e agregam valor", diz a pesquisa.
A pesquisa diz ainda que o acompanhamento dos pacientes para garantir que irão seguir as prescrições médicas pode gerar mais de US$ 30 bilhões por ano em novas vendas, além de proporcionar mais segurança ao paciente.
A prevenção de doenças também deverá se tornar o foco das empresas, diz a pesquisa. O documento diz que os países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos) usam 3% de seus gastos com saúde em prevenção, mas a OMS (Organização Mundial de Saúde) lembra que até 80% das doenças cardíacas, diabetes e 40% dos casos de câncer podem ser tratados se diagnosticados em tempo.
"Ao reconhecer a eficácia da prevenção de doenças em meio a populações saudáveis, ao invés de tratar populações doentes, a indústria farmacêutica irá entrar no domínio da gestão da saúde, com programas de bem-estar, monitoração, vacinações e outros serviços com valor agregado", diz a pesquisa.
A cooperação internacional pode vir a produzir um sistema regulatório mundial em 2020, diz o texto. Esse sistema seria administrado por agências nacionais para garantir que os novos tratamentos atendam as necessidades dos pacientes em seus respectivos territórios. "Tal sistema ajudaria a reduzir os custos crescentes da fiscalização e poupar tempo ao mercado."
Tema = SETOR FARMACÊUTICO
Participantes
· ANDRÉ VILLELA DE FREITAS - andrevillela1@yahoo.com.br
· ROGERIO DE MENEZES CORIGLIANO - rogerio@rocadvogados.com.br
· GUILHERME MEDEIROS BITENCOURT - gui_mbitencourt@hotmail.com
· EDUARDO GENERALI - eduardoeua@hotmail.com
· LEANDRO AUGUSTO DOS REIS - l.reis@yahoo.com.br
Procurem explorar mais a onda de fusões e aquisições, do fim de patentes, bem como o impacto dos genéricos na configuração das empresas e de seus modelos de negócio.
Luciel H Oliveira
Abaixo a apresentação do grupo:
"Com a expiração de muitas patentes em 2010 e 2011, a produção aumentará muito no Brasil"
A primeira carga de remédios foi apreendida em 2009, procedente da Índia, que seguia à América Latina, depois de queixas feitas por farmacêuticas europeias que detêm as patentes na Europa, mas não nos países produtores. O Brasil diz que um genérico, Losartan, para hipertensão, que trataria 300 mil pessoas durante um mês, não chegou ao país. A Índia reclamou de mais duas apreensões.
O embaixador brasileiro na OMC, Roberto Azevedo, disse que as autoridades de saúde no Brasil constataram que os importadores estão trazendo genéricos por outros caminhos, em vez da Europa, o que encarece o produto. Essa incerteza e custo maior no trânsito de genéricos parece ser a estratégia de multinacionais, julga Azevedo. Ainda mais num cenário em que vários remédios produzidos por grandes laboratórios, gerando US$ 30 bilhões em vendas anuais, vão perder suas patentes nos próximos anos, e a produção de genéricos deve aumentar.
Outras fontes dizem que a ação europeia pode criar um precedente para apreensões de outras mercadorias no futuro, também sob o pretexto de não terem patente ou serem suspeitos de falsificação.
A UE prometeu que seus países não usariam mais a legislação que permite o confisco. Mas essa promessa foi considerada insuficiente. O prazo para as consultas na OMC é de 60 dias. Se persistir o confronto, será pedido o estabelecimento de um "painel" (comitê de especialistas) para examinar a conformidade da legislação europeia com as regras internacionais.
Também por causa das apreensões, o Brasil apresentará proposta na Assembleia Mundial da Saúde, semana que vem, para a Organização Mundial da Saúde (OMS) manter o foco contra falsificação de remédios no âmbito da saúde pública e não procurar estendê-lo para questões comerciais.
O secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Reinaldo Guimarães, acusa "uma tentativa pelos detentores de patentes de fazer confusão entre falsificação e contrafação". Ele estima que uma ação firme na OMS precisa ser tomada, ainda mais que a produção de genéricos no Brasil tende a aumentar consideravelmente. De cada 100 unidades vendidas no país, 20 são de genéricos. Em valor, eles representam entre 15% e 18% do mercado, o que significa fatia de negócios superior a R$ 4 bilhões.
"O potencial para crescimento no Brasil é enorme, quando se considera que nos EUA os genéricos tem 50% do mercado e nos países nórdicos 70%", afirmou. "Com a expiração de muitas patentes em 2010 e 2011, a produção aumentará muito no Brasil." Ele confia que o Supremo Tribunal Federal rejeitará demandas dos laboratórios para estender as patentes, como ocorreu no caso recente do Viagra.
A ação na OMS será comandada pela embaixadora brasileira na ONU em Genebra, Maria Nazareth Farani Azevedo, que articula apoio de outros países. América do Sul, Índia e vários países em desenvolvimento defendem a proposta.
A indústria farmacêutica acompanha com prudência o confronto com a UE na OMC. Antonio Brito, presidente da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisas (Interfarma), nota que na Índia uma parte da indústria é moderna, mas outra não tem sequer 1% de controle pelo governo. As suspeitas em São Paulo são de que muitos remédios falsificados procedem da Índia via Paraguai. "Nosso problema não é com a Índia, mas de como se evitar falsificação de remédios", disse Brito. Já Guimarães nega a existência de grandes apreensões de medicamentos falsificados no país. "Se tivesse isso, a imprensa teria noticiado." (AM)
Laboratórios: Farmacêuticas deverão ser alvo de nova onda de fusões e aquisições
Mônica Scaramuzzo, de São Paulo -07/04/2010
Um trabalho realizado pela BSP (Business School São Paulo) mostra que esse movimento de consolidação no setor deverá se manter aquecido nos próximos meses. A BSP apresenta hoje o primeiro Painel da Indústria Farmacêutica (PIF) ao mercado, com o objetivo de se tornar uma ferramenta de interlocução sobre temas estratégicos desse setor. O estudo ouviu 27 empresas que representam 40% do mercado farmacêutico brasileiro.
"Esse movimento continuará crescendo à medida que o cenário econômico no país segue positivo e a população tem maior acesso a medicamentos", disse o professor da BSP, José Fernando Ramadinha, também diretor da Ramadinha Soluções Estratégicas ao Segmento Farmacêutico. O professor é um dos idealizadores desse trabalho.
As dificuldades no lançamento de novos medicamentos enfrentadas por laboratórios de todo o mundo estão entre os principais motivadores dessa onda de consolidação. Enquanto as fusões e aquisições devem acelerar seu ritmo neste ano, novos aportes de grupos estrangeiros também devem se intensificar no país, aponta 91% dos executivos que responderam ao relatório do PIF.
As indústrias consolidadoras estão mais interessadas em adquirir empresas com "pipeline" promissores e também querem aumentar seu portfólio. O ingresso a mercados estratégicos também impulsiona esse movimento. Para 60% dos executivos ouvidos pela BSB, a estratégia das companhias será adquirir empresas com portfólio promissor, enquanto que 40% esperam compartilhar esforços de pesquisa com instituições públicas.
Neste primeiro trimestre, a Hypermarcas foi a primeira empresa nacional a dar o tom nas operações de F&A, com a compra do laboratório de pequeno porte Luper. No fim do ano passado, a companhia adquiriu a Neo Química, de Goiás, que estava sendo disputada também pela americana Pfizer. A compra da Medley pela francesa Sanofi-Aventis em 2009 começou a inflacionar os ativos do setor farmacêutico.
"Os movimentos de F&A vão ficar mais aquecidos em todos os segmentos da economia. As empresas que adiaram seus projetos de expansão por conta da crise vão efetivar essas operações este ano", afirmou Luís Motta, sócio de Corporate Finance da KPMG no Brasil.
Segundo os executivos ouvidos para o relatório do PIF, os laboratórios também devem reforçar parcerias para desenvolvimento de produtos específicos, compartilhamento de ações de marketing e promoção, e a busca de recursos para pesquisa e desenvolvimento.
De acordo com o PIF, os laboratórios também estão dispostos a investir no país. A aquisição de novas companhias, rastreabilidade de produtos e comunicação em mídias digitais encabeçam a lista de aportes do segmento. A grande maioria dos executivos ouvidos, 81,82%, respondeu que vai elevar seus investimentos no Brasil este ano. Já 9,09% se limitarão a reinvestir seus lucros obtidos na operação brasileira e para outros 9,09% a tendência será remeter lucros para as matrizes, sem realizar novos investimentos no país.
Ainda de acordo com o relatório do PIF, as importações do setor deverão crescer este ano. Em 2009, as importações de medicamentos cresceram menos que as exportações. Embora ainda o Brasil seja deficitário na balança comercial do setor, houve redução significativa. Para 2010, o quadro deverá ser diferente, com aumento mais intenso das importações se comparadas com as exportações. Já as vendas agregadas devem continuar bem acima do PIB. Enquanto o país em geral cresceu 0,9% no ano passado, as vendas de medicamentos cresceram 8,2% e devem crescer 9,35% neste ano.
Valor Econômico, de São Paulo, 28/01/2010
"De cada 100 unidades vendidas no país, 20 são de genéricos", disse Finotti. "Esse é um mercado que tem crescido 20% ao ano." Neste ano, o medicamento da americana Pfizer, o Lipitor (usado no combate ao colesterol), um dos mais vendidos do mundo, perderá sua patente em dezembro. "A empresa conseguiu estender a patente duas vezes [originalmente vencia em 2006, foi estendida para junho de 2009, mas foi postergada para dezembro deste ano]", afirmou Finotti. As vendas desse remédio movimentam cerca de R$ 250 milhões no país.
Outro "blockbuster" (campeão de vendas) é o Diovan, que combate a hipertensão, um dos carros-chefe da suíça Novartis. A patente desse produto expira em junho, segundo Finotti. Para 2011, o produto mais aguardado pelos laboratórios genéricos é o Viagra. A "pílula azul", também da Pfizer, é indicada para combater a impotência sexual. Segundo o presidente da Pró-Genéricos, cerca de 25 medicamentos devem perder a patente até o fim de 2011, incluindo produtos adquiridos pelo governo.
A Lei dos Genéricos foi criada em 1999, mas os primeiros medicamentos foram lançados em 2000 no país. "Os produtos começaram a ganhar maior importância a partir de 2004", afirmou Finotti. Na avaliação de Nelson Mussolini, vice-presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos do Estado de São Paulo (Sindusfarma), quando um produto perde a patente seu preço passa a representar 65% do original de marca.
Analistas ouvidos pelo Valor afirmam que muitos laboratórios internacionais estão interessados em investir em aquisições de companhias nacionais com foco em genérico para poder ganhar nas duas pontas. A aquisição mais recente de multinacional neste segmento foi a operação envolvendo a compra do laboratório nacional Medley, o maior em genérico do país, pela francesa Sanofi-Aventis. (MS
Indústria farmacêutica
A Indústria farmacêutica é responsável por produzir medicamentos. É uma atividade licenciada para pesquisar, desenvolver, comercializar e distribuir drogas farmacêuticas. Muitas das companhias da indústria farmacêuticas surgiram nos finais do século 19 e início do século 20. As principais descobertas aconteceram em torno das décadas de 1920 a 1930. Nos últimos anos surgiram no Brasil os medicamentos genéricos que são alternativas às medicações tradicionais.
Controvérsias
De um modo geral, uma indústria farmacêutica fabrica e comercializa seus medicamentos somente após um longo processo de pesquisas, descobertas e testes dos remédios desejados, após meses ou anos de investimentos. Quando um medicamento é fabricado através de uma fórmula descoberta por uma determinada empresa, busca-se a obtenção de patentes, para que outras indústrias tenham que pagar royalties, caso desejem também fabricá-lo. A maior parte do investimento é recompensada pelo lucro advindo da venda de royalties e da comercialização direta dos medicamentos.
Porém, as indústrias farmacêuticas, principalmente nas últimas décadas, sofrem por possuírem uma imagem negativa, fruto da relação entre saúde e mercado. As pesquisas na área, para busca e aperfeiçoamento de determinados medicamentos, podem chegar à casa dos bilhões de dólares. Porém os críticos afirmam que tais pesquisas destinam-se apenas a obtenção de soluções que permitam um retorno financeiro considerável, como doenças que atingem pessoas com maior poder aquisitivo, principalmente nos países desenvolvidos; deixando-se de lado problemas que afetam países em desenvolvimento, que não poderiam comprar os remédios pelos preços que a indústria gostaria de praticar. Segundo Louis Currat, secretário-geral do Fórum Global de Pesquisas em Saúde, ligado à Organização Mundial de Saúde, "menos de 10% das verbas para pesquisa são destinados a 90% dos problemas de saúde do mundo".
Há quem afirme, entretanto, que sendo imprescindível a realização de pesados investimentos na área para encontrar medicamentos eficazes contra certas doenças, os recursos necessários deveriam vir de iniciativas públicas, ou seja, as pesquisas deveriam ser subsidiadas pelos governos locais, uns dos grandes prejudicados pelos males indesejados. Assim, a indústria poderia praticar preços menores, sem prejudicar a proteção das patentes e a venda de royalties.
Tudo isso se evidencia em números que mostram a diferença de pesquisas sobre doenças de impacto mundial, por exemplo: a malária, doença que mata um milhão de pessoas por ano, com 90% dos infectados localizados na África, conta com 18 medicamentos e 2 vacinas em desenvolvimento; a tuberculose, que mata dois milhões de pessoas todos os anos, (90% destes em países em desenvolvimento), conta com 17 medicamentos e 2 vacinas em desenvolvimento; e a AIDS, síndrome responsável por uma média de dois a três milhões de mortes anuais (com dois terços dos aproximadamente 40 milhões de infectados atuais encontrados na África, porém muitos outros milhões em países desenvolvidos), possui 88 medicamentos aprovados, 77 candidatos a medicamentos e 19 vacinas em desenvolvimento.
Principais Players
De acordo com a Revista Exame, as melhores empresas do setor em 2008 estão listadas abaixo:
1) Roche (Canadense)
2) Astra Zeneca (Anglo-Sueco)
3) Biolab Sanus Farmacêutica (Brasileiro)
4) Neo Química (Brasileiro)
5) Laboratório Cristália (Brasileiro)
6) Lilly (Americano)
7) Ems Sigma Pharma (Brasileiro)
8) Bristol-Myers Squibb (Americano)
9) Novartis (Suíço)
10) Ache (Brasileiro)
Ainda segundo a mesma revista, o setor teve o seguinte desempenho em 2008:
Medicamentos genéricos no Brasil: uma pílula difícil de engolir para a grande indústria
A introdução dos medicamentos genéricos no Brasil há cinco anos transformou a indústria farmacêutica do país. Desde então, este tipo de fármaco foi ganhando mercado ano após ano e, atualmente, é responsável por 11,6% do total de unidades de medicamentos produzidas no país. Este fenômeno estimulou o crescimento da indústria nacional, diminuindo a participação dos grandes laboratórios internacionais e seus produtos de marca no mercado doméstico. No entanto, esta não é a única ameaça que afeta os grandes laboratórios com presença no Brasil. O governo, numa tentativa de negociar descontos de preços, ameaça violar as patentes dos medicamentos que compõem o coquetel para o tratamento da AIDS. Até o momento, esta ameaça não se materializou, mas, de acordo com as empresas internacionais, provocará a redução de investimentos da indústria farmacêutica no país.
A história dos genéricos no Brasil teve o pontapé inicial a partir da definição da Lei de Patentes, que regulamentou o instituto das patentes no país, dando caráter internacional a essa noção de que há direitos de exploração sobre um determinado produto, serviço ou idéia inovadora. Diante da proteção aos direitos dos detentores de patentes, o governo brasileiro decidiu regulamentar o setor de medicamentos, um dos mais criticados até então por não respeitar os direitos internacionais. Assim, o Brasil era o paraíso dos remédios copiados sem pagamento àqueles que possuíam o registro de criação de determinadas substâncias ou medicamentos.
Em 1999, o governo aprovou a Lei dos Genéricos, permitindo às empresas fabricar legalmente medicamentos que são cópias perfeitas das drogas cujo prazo de patente expirou. O resultado foi a introdução dos genéricos no Brasil, uma situação que incomodou, de início, os grandes laboratórios. A relação entre eles e os produtores de genéricos acabou se estabilizando, apesar do significativo crescimento da participação dos genéricos no mercado.
Atualmente, de todas as unidades produzidas pelo mercado nacional de medicamentos, 11,6% são genéricos, segundo números do terceiro trimestre de 2005. No item faturamento, o percentual de participação deste segmento está em 9,05%.
“O mercado de genéricos no Brasil, desde o seu lançamento, vem crescendo mês a mês. Vem crescendo em número de unidades, que é o mais importante, e em valor. Nos últimos quatro anos, no Brasil, o mercado farmacêutico esteve praticamente estagnado. Em contraposição, o mercado de genéricos cresceu muito, e continua crescendo”, afirma Vera Valente, diretora executiva da PróGenéricos (Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos).
Segundo Vera, quando se leva em consideração apenas os produtos que eram patenteados e não o são mais, os genéricos “roubaram” uma parcela considerável do mercado dos blockbusters, remédios de marca tradicionais dos laboratórios internacionais. “A gente tem uma análise em que pegamos os 50 principais produtos do mercado farmacêutico não-patenteados e comparamos a inserção dos genéricos: ela sai de uma participação inexpressiva em 2001 para hoje estar representando 41% desse mercado”, diz a dirigente.
Mesmo diante desses dados e levando-se em consideração que a indústria farmacêutica tem de fato se mantido estagnada nos últimos anos, representantes dos grandes laboratórios internacionais dizem que não há conflito na convivência com o genéricos. “Se o produto passa pela bioequivalência, pela bioestabilidade, pela biodisponibilidade, tem um método de fabricação perfeito e eu não tenho patente, nada mais justo que a entrada de genéricos. Então, nós não somos contra”, diz Jorge Raimundo, presidente do Conselho Consultivo da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, que representa grandes laboratórios internacionais).
Para Jorge Raimundo, a indústria farmacêutica de pesquisa tem uma coisa extremamente importante a favor dela, que são os grandes investimentos que faz em pesquisa, as grandes descobertas e as patentes. “Todos os laboratórios quando descobrem, inventam e lançam um produto, têm, no mundo inteiro - e o Brasil é novo nessa área de patentes, ainda -, um período de exclusividade garantido por lei, que é para eles explorarem o objeto de sua patente. Nada mais justo que quando a patente se esgote é que então entre o genérico”, diz.
“Quando os genéricos entraram, parecia que a indústria farmacêutica era contra. Não, nós não éramos contra. Nós éramos contra o que estava sendo vendido como genérico, os remédios similares que se passavam por genéricos”, explica Jorge Raimundo.
O discurso parece bater justamente com o da própria indústria dos genéricos, que também vê como grande problema do mercado os produtores de remédios similares - que não investem em pesquisa de inovação nem, tampouco, buscam a bioequivalência e a biodisponibilidade para enquadrar-se como genéricos. “Nós somos aliados, porque temos um `inimigo´ em comum: os similares... Essa competição (entre genéricos e produtos de marca) já está mais estável e se percebeu que não é ela que traz problema para cada um ter sua fatia de mercado”, avalia Vera Valente.
A função social do medicamento genérico
Longe de eventuais diferenças entre os atores de cada segmento da indústria farmacêutica, no campo acadêmico os genéricos no Brasil são vistos como fator extremamente positivo na democratização do acesso aos medicamentos.
“Qual é o principal fator favorável ao desenvolvimento da indústria de genéricos no Brasil? O custo dos medicamentos. Com a liberação das patentes dos medicamentos que já haviam ultrapassado aquele tempo limite, os preços desses medicamentos caíram 30%, 40%. Então, o medicamento genérico tem um apelo social muito grande, porque, na realidade, um dos grandes problemas no país é que a população que ganha até três salários mínimos (o equivalente a R$ 900, ou pouco mais de US$ 400) não tem condição de custear saúde, nem medicamentos. Com os medicamentos genéricos, diria que a população pobre começou a ter mais acesso aos remédios, coisa que antes não acontecia”, considera o professor Geraldo Alécio de Oliveira, coordenador do Curso de Farmácia da Universidade Anhembi Morumbi.
Para Geraldo de Oliveira, “o mercado de genéricos veio trazer saúde no sentido amplo para nossa população mais pobre. Acho que o grande ponto de política de saúde no Brasil nos últimos anos foi a abertura do mercado de genéricos”.
O programa é também elogiado por uma profissional que se dedica a um segmento intimamente ligado ao consumidor, a farmacêutica Naira Villa Lobos Vidal de Oliveira, do Ministério da Saúde e da Farmácia Universitária da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro): "Eu bato palmas (para o programa) pois acho que a grande bandeira dos genéricos é a questão da qualidade do produto. Nisso, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) investiu muito em fiscalização dos laboratórios que começaram a produzir genéricos. Esta é uma coisa que a gente precisava, tínhamos um problema sério na questão da qualidade dos produtos fabricados aqui no Brasil".
Para ela, o importante é que as pessoas passaram a ter mais condições de comprar medicamentos. “É claro que quem não tinha acesso, continua a não ter. A situação melhorou para as pessoas que já podiam comprar e passaram a comprar com preço menor. Agora, quem não tinha condições de comprar remédios, cerca de 40% da população, continuou a não ter", avalia Naira.
A paralisação do mercado
Justamente neste ponto lembrado pela farmacêutica Naira de Oliveira é que se situa um dos problemas que afetam a grande indústria: a estagnação do mercado. Ao contrário do que se esperava - que era o aumento do número de compradores com a entrada no mercado de pessoas de renda mais baixa que passariam a comprar genéricos -, houve apenas uma substituição do remédio de marca mais caro pelo genérico mais barato por aqueles que já eram consumidores.
“O que aconteceu é o seguinte: em 1997, por exemplo, antes dos genéricos, nós vendíamos no Brasil 1,35 bilhão de unidades; hoje, em 2005, a indústria vai terminar o ano vendendo 1,35 bilhão de unidades. Ou seja, nós estamos vendendo exatamente o que a gente vendia antes dos genéricos. O que houve foi uma substituição do produto de marca pelo genérico pelo mesmo tipo de comprador, que era a classe média”, destaca Jorge Raimundo.
Falando em negócios, Geraldo Oliveira considera que a Lei dos Genéricos (nº 9.787/99), na realidade, afetou as grandes indústrias farmacêuticas. Para o professor, a lei “beneficiou muitos laboratórios menores, muitas vezes nacionais, que tiveram como produzir esses medicamentos a um custo bem mais baixo”. Em sua opinião, “na realidade, nós temos um grupo de medicamentos mais baratos, que são os genéricos, com a mesma qualidade e eficácia que os medicamentos de referência, que são sempre mais caros. Isso trouxe uma queda nas vendas para os grandes laboratórios internacionais, e eles têm uma resistência muito grande em aceitar os genéricos”.
Por outro lado, ele enxerga na adoção dos genéricos um movimento que contribuiu para o avanço da produção nacional. “Na indústria farmacêutica, houve um grande movimento de contratação (de pessoal) nos nossos laboratórios nacionais. Esses laboratórios cresceram com a indústria de genéricos. Hoje, eu diria que eles adquiriram uma certa fatia do mercado”, diz. Neste ponto, Geraldo Oliveira lembra que os próprios laboratórios internacionais estão entrando no segmento de genéricos, como é o caso do Novartis. “Então, não são só os laboratórios nacionais que produzem genéricos. Como os grandes laboratórios perderam parte do mercado, eles também começaram a investir no mercado de genéricos”, explica.
Para o segmento de genéricos, a expectativa é que o crescimento observado até agora, nestes cinco anos de existência desse tipo de medicamento no Brasil, tenda a se estender no médio prazo: “A gente trabalha com uma meta na entidade - e vou te dizer que é uma previsão de realista a pessimista - de ter 20% (do mercado de medicamentos) até 2009”, aponta Vera Valente. O tempo dirá se a estimativa se concretizará.
Um enfrentamento custoso?
Enquanto na questão dos genéricos o Brasil faz questão de demonstrar que está enquadrado nas “leis e direitos” que regem a economia de mercado mundial, algumas atitudes do governo provocam mal-estar na indústria farmacêutica. Como ocorreu no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) - quando o então Ministério da Saúde ameaçou várias vezes quebrar patentes de remédios do coquetel de combate à aids para baixar os preços de compra desses produtos -, o atual governo adota estratégia parecida em sua política no trato com os fornecedores internacionais.
Recentemente, o Ministério da Saúde ameaçou quebrar a patente do medicamento antiretroviral Kaletra (um dos componentes do coquetel antiaids) durante a negociação de preço com laboratório norte-americano Abbott. Apesar de a ameaça não ter chegado às vias de fato (o laboratório concordou em reduzir em 46% o preço do remédio - distribuído gratuitamente a cerca de 163 mil pacientes portadores do vírus HIV, dos 600 mil existentes no país -, e o governo manteve a patente intacta), os efeitos da iniciativa podem não ser os mais positivos para o país.
Segundo Jorge Raimundo, “a ameaça de quebra de patente fez com que a indústria de pesquisa no Brasil, que tinha 24 mil empregados em 1999, tenha 20 mil, hoje. A gente trazia US$ 350 milhões por ano de investimentos ao Brasil até 1999, e vamos trazer US$ 90 milhões este ano. Os investimentos estão indo paro o México, para a Coréia, estão indo para outros países. A forma de lidar com isso é muito difícil para um investidor em pesquisa, porque a pesquisa usa muito dinheiro, muita gente, muito tempo, e quando você investe em alguma coisa, assume que você tem o direito de propriedade intelectual sobre aquilo... Quando você ameaça o investidor estrangeiro e diz: `Olha, vou quebrar a patente de aids´; o investidor lá fora diz: "Hoje eles quebram aids, amanhã eles quebram de cardiologia, depois de amanhã, de analgésicos´... Você ameaçando que vai quebrar um, fica-se de olho que é muito possível que você vai quebrar outro”.
Ele destaca que, desta forma, a reação da indústria é de muita precaução em relação a novos investimentos no país. “É triste a gente ver que um país como o Brasil, tão grande, faça uma ameaça tão boba, que é contraditória ao que está nos acordos internacionais... O que a gente não acha justo é o governo ameaçar que vai quebrar patente porque, alega ele, não tem dinheiro, quando nós vendemos mais barato no Brasil que em qualquer lugar do mundo. É uma medida extremamente desagradável, inoportuna, e que só cria problemas para a entrada de capital no Brasil”, alerta o dirigente.
Do outro lado da discussão, Geraldo de Oliveira defende que a questão das patentes de remédios para aids deva ser amplamente debatida, tendendo a chegar-se a uma saída voltada à visão social do problema. “Hoje, a indústria de medicamentos é uma das que mais fatura no mundo. Você quebrar a patente de uma dessas poderosas indústrias sempre vai gerar uma guerra, com certeza. Só que eu acho que o fundamento social é muito grande... Então, eu penso que a quebra das patentes dos antiretrovirais não é mais uma questão política, passa a ser uma questão de necessidade dos países que querem realmente tratar os portadores do HIV... Como profissional da área, defendo a quebra das patentes - é lógico, que com algum retorno para os laboratórios, porque eles não podem pesquisar novos medicamentos e não ter nenhum retorno”, conclui o professor.
Mercado farmacêutico mundial pode chegar a US$ 1,3 trilhão em 2020
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VINICIUS ALBUQUERQUE
da Folha Online
O mercado farmacêutico mundial deve movimentar US$ 1,3 trilhão até 2020, o que dobrará o valor movimentado hoje, devido à crescente demanda por medicamente e tratamentos preventivos. Países emergentes como Brasil, China, Índia, México e Rússia devem responder por um quinto das vendas nesse setor, segundo pesquisa divulgada nesta quarta-feira pela empresa de consultoria PricewaterhouseCoopers.
De acordo com o estudo, no entanto, o atual modelo de negócios da indústria farmacêutica é economicamente insustentável e operacionalmente incapaz de desenvolver rápido o bastante os tratamentos que se tornarão cada vez mais necessários nos países emergentes.
"As empresas farmacêuticas encaram uma escassez de novos compostos, desempenho financeiro fraco, alta nas vendas e nos gastos com marketing, restrições e desafios legais e regulatórios cada vez maiores", diz a pesquisa.
"O principal desafio para a indústria é a falta de inovação. A indústria está investindo duas vezes mais em pesquisa e desenvolvimento que há uma década para produzir dois quintos dos novos medicamentos que então produzia. Esse é simplesmente um modelo insustentável de negócios", afirmou.
Nos próximos anos, a indústria farmacêutica terá de se concentrar em resultados para poder desenvolver novos produtos, para decidir sobre preços e partilhar riscos. "Empresas bem sucedidas irão provar que seus produtos realmente funcionam e agregam valor", diz a pesquisa.
A pesquisa diz ainda que o acompanhamento dos pacientes para garantir que irão seguir as prescrições médicas pode gerar mais de US$ 30 bilhões por ano em novas vendas, além de proporcionar mais segurança ao paciente.
A prevenção de doenças também deverá se tornar o foco das empresas, diz a pesquisa. O documento diz que os países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos) usam 3% de seus gastos com saúde em prevenção, mas a OMS (Organização Mundial de Saúde) lembra que até 80% das doenças cardíacas, diabetes e 40% dos casos de câncer podem ser tratados se diagnosticados em tempo.
"Ao reconhecer a eficácia da prevenção de doenças em meio a populações saudáveis, ao invés de tratar populações doentes, a indústria farmacêutica irá entrar no domínio da gestão da saúde, com programas de bem-estar, monitoração, vacinações e outros serviços com valor agregado", diz a pesquisa.
A cooperação internacional pode vir a produzir um sistema regulatório mundial em 2020, diz o texto. Esse sistema seria administrado por agências nacionais para garantir que os novos tratamentos atendam as necessidades dos pacientes em seus respectivos territórios. "Tal sistema ajudaria a reduzir os custos crescentes da fiscalização e poupar tempo ao mercado."